Nossa História

Chega de rolo!

"Para povo organizado não existe governo ruim"
Rogério Amato

Tudo começou quando saí de casa numa manhã de 2004 e me deparei com os primeiros cartazes da campanha eleitoral sendo pregados nos postes da avenida. “Vai começar tudo de novo”, pensei, com um aperto no peito. Vão gastar um dinheirão para tentar nos convencer de que agora tudo vai mudar.”

Parei no primeiro farol e me deparei com um desempregado vendendo bala de goma e duas crianças disputando a limpeza do para brisa.  Todos os dias, nos faróis, é essa mistura de pena e raiva. Sem falar no medo de assalto.

Não, não, não. Não quero mais!!! Nem o cartaz, nem o desempregado nem a criança pedinte, nem o assaltante. Quero viver num país melhor. Não será cartaz, alto-falante ou porta-bandeiras nas esquinas que irão me convencer a votar neste ou naquele candidato.  Um dinheirão gasto porque querem nossos votos.  Nesta época SOMOS IMPORTANTES!  

De repente pensei em cabelo com chiclete. Não há o que desembarace um chumaço de cabelo com chiclete. Só cortando mesmo. Algumas pessoas se elegem e se instalam como chicletes, embaraçando tudo e impedindo que se organizem os fios. E nós, eleitores, não nos damos conta do tamanho do nó, nem que nosso comodismo faz parte desse nó.

Não percebemos que podemos começar a cuidar de nosso país parando de reclamar entre nós mesmos. A reclamação mal dirigida é alívio aparente, não produz mudança.

No fim da tarde passei por uma carrocinha de catador de papel, herói oculto do meio ambiente. Ele anda devagar, seu trabalho é importante, difícil e pouco valorizado.  Para onde irá vender seu material?  Cooperativas de catadores estão começando a aparecer mas ainda há muito a conquistar.  A mídia não  ajuda, preocupada que está em vender noticias impactantes. Coisas boas acontecem discretamente, sem holofotes. A carrocinha passou. O meu dia também, parecido com o de sempre.

Ao voltar para casa, liguei distraidamente a televisão.   O noticiário apresentava sua sequência de noticias inquietantes. Corrupção e violência em índices crescentes. Estamos mesmo enrolados,  sem poder de fazer nada, pensei.  

Levantei para ir ao banheiro e precisei trocar o rolo de papel. Examinei o miolo com atenção. Uma peça simples, pratica, reciclável e conhecida por todos. 

Poderia ser um símbolo!

Logo imaginei milhares de pessoas guardando seus rolos de papelão para os enviar num determinado dia para as sedes dos governos municipais, estaduais e federais para serem reciclados com o pedido de alguma ação popular pedido pelas  reformas políticas, tributárias, eleitorais, judiciárias que estão emperradas por aqueles que desconhecem o significado de Bem Comum.

É uma maneira de mostrar que existimos, estamos insatisfeitos e decididos a lutar pela reciclagem do que já não serve mais.

Em 15 dias já juntei mais de 100, graças à Dalva cabeleireira.  Eu contei a ela minha ideia, ela gostou, contou pra Claudia dona do salão. Claudia contou pra Célia  para Dirce, Denise, para as freguesas e assim por diante. Cada vez que eu ia ao cabeleireiro, voltava com um saco enorme de rolos de papelão. O pessoal aqui em casa não gostou muito, mas assim foi criado o Movimento Chega de Rolo, posteriormente chamado Desenrola Brasil e agora Desenrolares, por começar a investigar outros tipos de rolos, os que dão origem a todos os outros rolos.

 

Cristina Mattoso