Cristina Mattoso – Pessoa comunicativa, mas nem sempre. Gosta de árvores, escrever, viajar, ler e comer bem. Considera as frutas, iguarias de Deus. Dança pouco, mas gosta muito. Sonhadora, voltou a se dedicar a um trabalho antigo de educação para cidadania e a resgatar o acervo de peças de arquitetura do século IXX, fundado por sua mãe em Araçariguama-SP. Seu sonho é fazer de lá um espaço para o desenvolvimento e divulgação de Arte, Cultura, Conhecimento e Educação Emocional.

 

Rascunhando quem sou eu

Confesso que o pedido para escrever quem eu sou foi difícil de aceitar. Não tenho nada digno de atenção, mas ao mesmo tempo compreendo que alguém possa se interessar em saber um pouco mais sobre quem está por trás do rolo.

Sou comunicativa, mas nem sempre. Gosto de gente, mas enquanto não conheço bem uma pessoa, permaneço desconfiada e distante. Adoro estar junto dos queridos, mas gosto de estar só também.

Apesar de ter sido aluna sofrível e não ter formação em ensino superior, sempre fui uma buscadora. Desde cedo me interessavam as histórias contadas por minha mãe, e mais tarde os livros de filosofia e autoconhecimento. Era dispersiva, mas não me inquietava com isto. Sem cerimônia ou desrespeito ao autor, pulava as frases e parágrafos que eu não entendia.

Fui educada em colégio de freiras, mas não me sentia nutrida, nem intelectual nem espiritualmente. O que me serviu foram os poucos e bons laços de amizade. Assim que foi possível, comecei a buscar conhecimento sobre o que me interessava nos livros e nas tradições budistas, taoístas, espíritas e sufis, e me alimentei regiamente de tudo o que era capaz até encontrar o caminho do Pathwork, onde montei minha residência.

Gosto de estar com a natureza, escrever, viajar, ir ao cinema. Gosto de dançar, mas danço pouco. Gosto de ler, adoro poesia e cantar. Antigamente a música chegava pelo rádio ou eram gravadas em discos. Eu ouvia a mesma canção dezenas de vezes para conseguir escrever a letra e poder cantar junto, até que começaram a chegar os PLs com as letras na contracapa. Uma verdadeira festa! Meus 15 anos foram brindados com a chegada dos Beatles e do Chico Buarque. Quando escutei os Beatles pela primeira vez, meu coração sentiu um sobressalto de alegria e quase disparou. O Chico Buarque eu não dava conta sozinha. Minha avó e eu sentávamos de mãos dadas para poder aguentar tanta poesia de uma só vez.

Comer é uma das grandes alegrias e fruta é o melhor presente que alguém pode me dar.  Moro num lugar tranquilo, cheio de árvores, passarinhos e luxos do nascer do sol. Exercícios não gosto, faço pouco e com esforço.

Em 1998, escrevi o relato “Que casa é essa?” sobre minhas andanças pelo universo doméstico, marido, filhos, bagunças e a busca de ordem, e dei algumas cópias para amigos, mas não cheguei a publicá-lo. Em 2003, a convite da Verus Editora, organizei uma coletânea de frases infantis – “Me dá o teu contente que eu te dou o meu”.

Posso dizer que continuo curiosa e carregada de perguntas, que algumas vezes se acomodam em respostas incertas. Até há pouco tempo, eu achava que o direito é sempre justo, apesar de prova em contrário. Hoje, vejo claramente que nem tudo que é direito é justo, nem tudo o que é justo é direito.

Talvez por esta razão eu tenha decidido recuperar o Projeto Desenrolares, trabalho iniciado em 2004, nascido da vontade de encontrar respostas para nos tirar do atoleiro habitual dos lamentos e das acusações inúteis. Busco caminhos que possam nos libertar de atitudes insensatas, pautadas numa ignorância gananciosa que considera a sensibilidade e a emoção como características de pessoas fracas.

Além do Desenrolares, tenho me dedicado a recuperar o trabalho iniciado por minha mãe, Leyla Mattoso, que em 1970 montou um acervo arquitetônico formado por grades antigas, portões, vitrais, azulejos e mais dezenas de peças interessantes, num sítio perto de São Paulo. O espaço é rodeado de natureza e propício para criação e desenvolvimento de Arte, Cultura, Conhecimento e Educação Emocional, ingredientes imprescindíveis na desconstrução de valores que já não nos servem mais.

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